"Uma cantora que não quer ser ‘cool’"
Por Joaquim Ferreira dos Santos
Elas refletem a falta de vísceras que está na música cheia de pudor, no teatro cheio de bom gosto e no jornalismo sem suor. Um país chato. Todos querem sê-lo assim, pronominais, limpinhos, contemporâneos e thai. Todos querem o elogio pelo minimalismo wall-paper que viram ontem na revista internacional e pela capacidade de se comportar dentro dos padrões ditados há dezenas de anos pelos controladores de som da bossa nova. Não é o caso de Alcione e sua voz de trompete garantindo, em tom maior, que há outras maneiras de cantar, de se levar a vida. Enfim, uma cantora que sabe o que interessa. Ele.
Alcione fala de tudo que as outras, com medo do que a Marisa Monte vai pensar, abafam. O CD de Alcione é feito de cheiros exalados pelo amor cheio de sacanagem de um casal que se ama, letras desenhadas pelas ameaças sentimentais de quando o pau quebra entre o casal que deixou de se amar. A MPB sofre de um medo generalizado de dar bandeira e dizer o que acontece toda hora a todos lá fora. Fracassei. Menti. Traí. Há um medo sanitário em gritar o tesão e, o horror dos descolados, parecer ligado demais em coisas antigas.
“Vem matar o meu desejo, meu corpo te chama”, diz a Marrom, sem pensar no que a Maria Gadú vai achar desse clamor musical.
Alcione mistura tango, samba, bolero e muito vem-cá-meu-nego, você-não-sabe-o-que-está-perdendo. Ela joga fora os manuais que a geração Marisa Monte decora para ser elegante, essa obsessão que paralisa os otários com as notícias que saíram anteontem numa revistinha de Berlim. Em “Acesa”, o nome está dizendo, não tem meia-luz. É o escancaro, “a brasa na minha esteira” e “as armadilhas da paixão”. Tudo na frente do espelho e de janela aberta. O verbo é cru, mas não é sushi.
A Lenny Niemeyer não convidaria Alcione para o almoço de domingo à tarde. O Fasano Al Mare não lhe daria a mesa, atrás das cortinas, que serviu à Madonna. E, no entanto, em “Acesa”, Alcione é tudo o que eu queria dizer antes para reclamar dessa falta de lubrificação nas ideias das cantoras da MPB e agora, com o seu maravilhoso CD servindo de fundo, todos podem entender melhor.
“O que vocês querem que eu faça se eu não domino essa paixão”, diz logo na primeira frase da primeira faixa do disco.
“Me leva pra cama e desperta este vulcão”, diz em outra faixa mais adiante.
O resto é o que está por aí na Lapa branquinha dos sambinhas universitários, na praia sem o coco verde dos higienizadores do bom gosto, no botequim sem a serragem ao pé do balcão, no lead e no sublead da reportagem feita pelo telefone. Dizem que as operadoras de telefonia patrocinam o país. Acho que é o Pinho-Sol.
Alcione, a melhor cantora brasileira de muitos dezembros, é de outra freguesia. Mora num bairro distante, de ruas sujas pela passagem do tempo, em que as pessoas se mexem pelo desejo de serem felizes e não antenadas. Aqui, a Comlurb não recolhe o lixo sentimental das histórias que se acumulam nos corações. Elas viram patrimônio, ruga, gritos na madrugada e samba bom. O padrão de qualidade de Alcione é o da emoção vivida, a vida das mulheres adultas que ousam dizer seu nome. Já pintaram, bordaram. Não têm vergonha de vir a público, segurar o microfone e encher a boca para dizer com toda franqueza. O que vale mesmo é a “pegada” do distinto que lhe vai na cama. Aqui não se usa lençol de 500 fios da Alfaia. Nada de racionalismo grifado pela Maria Bonita, nem o sossego-tarja-preta dessas moças que se alimentam existencialmente com o tédio de um kone, dois kebabs e 28 kisses diferentes por noite, proteínas ralas do jogo rápido e das relações sem compromisso.
Enfim, um CD não adolescente.
“Quem ama nunca mede as consequências”, diz Alcione.
“Ele me faz virar os olhos de madrugada”, continua, para deixar as coisas bem claras.
Enfim, uma cantora que solta a voz, e que voz tamanha! Alcione parece estar contando o que lhe vai nos buracos da alma, não o que possa parecer recomendável para ficar com o mesmo jeito das outras e dar continuidade a esse filme de terror que vive o dial do rádio, nos carros presos neste imenso engarrafamento da imaginação. As cantoras lançadas esta semana cantam iguais às da semana passada e, ao contrário da Cássia Eller, da Ângela Ro Ro, da Rita Lee, suas letras falam do nada, do ectoplasma do ET de Varginha, de tudo que não lhes diz respeito. As tatuagens mudam, o resto é o de sempre. As moças mais bonitas do Leblon estão se vestindo todas do mesmo jeito. Os textos dos jornais escritos pelas moças mais bonitas do Leblon parecem saídos de uma máquina de temaki.
Por isso, contra o tédio cantante, a sensaboria reinante, use Alcione. Sinta “o gosto do desejo”, deixe que “o corpo se inflame”, permita “a mão atrevida” e provoque no outro o que lhe “acenda a imaginação”. Chega de sussurro e som de besouro ímã nas letras das canções. Enfim, uma cantora que você sabe do que ela está falando. A vida, o amor e a arte só têm graça se puderem ser de outro jeito".
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